| O
Estado fraco é cada vez mais científico e a ciência incerta
é cada vez mais política |
Sempre
vivemos em sociedades de risco; o que mudou ao longo dos séculos
foram os tipos de risco e os modos de os prevenir ou de lhes minimizar
as consequências. Durante muitos séculos a produção de riscos teve
pouco ou nada a ver com a protecção contra os riscos. Nos últimos
duzentos anos, à medida que se foi caminhando para "uma sociedade
totalmente administrada", a produção do risco e a protecção contra
ele foram-se vinculando mais e mais uma à outra. Ou seja, as instâncias
que produziram o risco foram as mesmas a que se recorreu para proteger
contra o risco.
Duas dessas
instâncias merecem destaque: o Estado e a ciência. Ao promover o
capitalismo, o Estado produziu ou sancionou muitos dos riscos sociais
(fome, desemprego, criminalidade, doença, falta de habitação) que,
paulatinamente e por acção de múltiplas lutas sociais, foi chamado
a prevenir ou a atenuar nas suas consequências mais corrosivas.
O Estado-Providência culminou esse processo de gestão controlada
de riscos sociais. Por seu lado, ao converter-se em tecnologia e
à medida que a tecnologia foi penetrando em mais áreas da vida social,
a ciência passou a estar na origem dos riscos da chamada "sociedade
tecnológica" e foi igualmente à ciência que se foi recorrendo mais
e mais para encontrar soluções de eliminação ou de contensão dos
riscos produzidos. O desenvolvimento destes processos levou a uma
vinculação recíproca entre o Estado e a ciência. O Estado recorreu
cada vez mais à ciência para proteger contra os riscos e, no processo,
a ciência politizou-se. Ao contrário do que muitos previram, desta
vinculação recíprocra não resultou uma mais eficaz protecção contra
os riscos. As três últimas décadas são amplo testemunho disso.
Ao promover
a passagem do capitalismo nacional para o capitalismo global, o
Estado aumentou a sua capacidade de produzir riscos sociais na mesma
medida em que perdeu capacidade para proteger contra eles. Por seu
lado, o extraordinário avanço tecnológico veio revelar uma debilidade
estrutural da ciência: o facto de que a sua capacidade para produzir
novas tecnologias é imensamente superior à sua capacidade para prever
as consequências sociais dessas tecnologias. Entramos, assim, num
novo milénio com um Estado enfraquecido na sua capacidade de protecção
e com uma ciência cada vez mais incerta a respeito das suas consequências.
Para tentar disfarçar as suas incapacidades recíprocas, o Estado
e a ciência procuram vincular-se mais e mais um ao outro, desculpando-se
um com o outro. Assim, o Estado fraco é cada vez mais científico
e a ciência incerta é cada vez mais política. As ilustrações deste
fenómeno inquietante abundam: as vacas loucas, os organismos geneticamente
modificados, o "impacto" ambiental, as radiações de urânio empobrecido,
os riscos para a saúde pública da co-incineração de resíduos industriais
perigosos, etc., etc.
Dado o
muito que está em causa, nem o Estado pode ser deixado aos políticos
nem a ciência pode ser deixada aos cientistas. O Estado será mais
eficaz se assumir a participação activa dos cidadãos como o seu
principal critério político. A ciência será mais eficaz se assumir
a incerteza: se for mais aberta à pluralidade de opiniões no seu
seio e menos arrogante em relação ao saber-testemunho dos cidadãos
que sofrem na pele as consequências da sua imprevisão.
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